28/09/2007 – 17h43
O francês Dominique Strauss-Kahn assumirá as rédeas de um FMI que passa por uma “crise de meia-idade”, com sua legitimidade e missão questionados por causa da dificuldade em se adaptar aos novos tempos, segundo analistas.
A principal tarefa do ex-ministro francês “será evitar que o Fundo caia na irrelevância”, disse Peter Chowla, do Bretton Woods Project –organização que monitora o funcionamento do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
O próprio Strauss-Kahn reconheceu em sua sabatina no Conselho Executivo do FMI, dia 20, que “o próximo diretor-gerente terá que restabelecer a credibilidade e a eficiência do Fundo.”
A instituição nasceu em 1944 no vilarejo de Bretton Woods, em New Hampshire (EUA), como uma espécie de árbitro mundial para manter a estabilidade financeira e reger um sistema de taxa de câmbio fixa baseado no padrão ouro.
Posteriormente, começou a fazer empréstimos a países com problemas na balança comercial.
Em ambas as frentes, a tarefa deu uma reviravolta. O padrão ouro colapsou em 1971 e os mercados e os bancos privados erodiram o poder de decisão sobre assuntos econômicos de governos e instituições públicas.
Como credor, o FMI perdeu seus clientes um a um e só resta a Turquia como grande prestatário.
“Os países em desenvolvimento não querem ter nada a ver com o FMI, devido ao fracasso de suas políticas de ajuste econômico na Ásia, na África e na América Latina”, disse Chowla.
O espanhol Rodrigo de Rato, que entregará o cargo a Strauss-Kahn em 31 de outubro, já reconhecera a situação precária do FMI logo quando tomou posse, em junho de 2004.
Rato elaborou uma “estratégia de médio prazo” para a reforma do Fundo, com a qual quis deixar uma marca, mas até agora houve mais palavras que ações.
O plano prevê, entre outras coisas, que o FMI cuide mais de temas financeiros, busque novas fontes de financiamento e redistribua o poder em favor dos países emergentes.
Em sua sabatina no Conselho Executivo, Strauss-Kahn expressou seu apoio a grande parte do projeto, mas falta ver se mudará de ênfase.
“Ninguém concorre à eleição dizendo que ‘tudo está ruim e eu vou resolver’”, disse Edwin Truman, ex-diretor do departamento de finanças internacionais do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) durante mais de 20 anos.
“Você não vai dizer às pessoas que vão te escolher que elas estão enganadas e que adotaram políticas errôneas”, acrescentou.
Uma das pessoas que deram aval a essas políticas foi Timothy Adams. Como subsecretário do Tesouro dos EUA, ele era encarregado de assuntos internacionais e, hoje, disse esperar que Strauss-Kahn retome a estratégia iniciada por Rato.
“Ele pode querer fazer alguns ajustes aqui e e ali, talvez queira ser mais ousado, mas acho que todos os ingredientes adequados estão presentes. A estratégia simplesmente tem que ser posta em prática, que é sempre a parte mais difícil”, disse Adams.
Um dos aspectos mais controvertidos dessa estratégia é a redistribuição de votos nos órgãos de governo do FMI. A repartição atual responde a uma equação complexa que dá a maioria do poder aos aliados da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Ao outorgar grande peso à abertura comercial e financeira, os pequenos países europeus estão exageradamente representados, enquanto países emergentes que cresceram muito nos últimos 60 anos, como a China e a Coréia do Sul, têm muito menos peso de voto que sua fatia na economia mundial.
Atualmente, os membros do FMI trabalham na criação de uma nova fórmula, mas Adams reconheceu que o processo “está um pouco atolado”, diante da resistência dos países que deveriam ceder poder a fazer concessões.
Strauss-Kahn disse que resolver este tema “é absolutamente necessário”, embora não especificou qual seria uma solução aceitável. A partir de 1º de novembro terá que abandonar as declarações genéricas e sujar-se com os detalhes.
